Carta antes da VI Jornada de Agroecologia da Bahia (2019): A Teia dos Povos caminhando para a jornada do bem viver

Romaria das Águas na Pré-Jornada da Comunidade Quilombola e Pesqueira de Graciosa (Taperoá-BA)

HU!
Às companheiras da rede de mulheres da Teia dos Povos,
Aos companheiros e às companheiras ameaçadas pela devastação da Amazônia,
Aos jovens que nos tem ensinado a rebeldia,
Às lideranças dos Núcleos de Base,
Aos irmãos e às irmãs dos Elos da Teia,
Aos apoiadores e amigos, amigas sinceras,
Aos movimentos e comunidades que acabam de forjar esta aliança,
Às mulheres, homens, crianças e velhos que teimam em lutar,
Em respeito aos mais velhos e aos mais velhos dos mais velhos,
Em respeito à Mãe Terra que agora sofre,
Agora falamos.

Aqui não há coitados, coitadas. Seguimos fortes. Ainda assim, somos as dores de muitos que já pararam de doer, que não estão mais conosco. E por nós nossa voz ecoam vozes daqueles que já não podem mais falar. Estamos sobre a terra e o território de muitos antepassados que não viram o dia de nosso triunfo sobre o mando dos brancos. Hoje precisamos seguir caminhando pois já não nos bastam mais as palavras nem os frutos de nossas terras. O bem viver precisa do outro, da outra. O mau governo nos impôs a tarefa de nos unirmos. É assim, pois, que seguiremos.

Não há caminho de radicalismo que não passe por reconhecer que nossa caminhada deságua em outras águas, emborca em tantos rios com tantos nomes diferentes e que nosso único sonho é que tantos ribeirões, riachos, córregos possam se unir e ser o imponente mar da união. Por isso nós precisamos de nossos irmãos, de nossas irmãs que não estão em nossa terra, em nosso território. A aliança que estamos construindo não é sobre frentes políticas que descarrilha em eleições. Tampouco é sobre resistir e esperar que esta tempestade de perversidades passe. O que queremos é construir uma jornada do bem viver que nos dê soberania. Em verdade, que nos dê tantas soberanias quanto podemos ter. A soberania alimentar, pedagógica, política, econômica, hídrica, energética, espiritual, emocional… soberania.

Por isto a Teia dos Povos tem caminhado e ido de território em território de nossos amigos, nossas companheiras, para ouvir, falar e construir soberania. Nós só precisamos de nós mesmos. Nossos ricos territórios e nossa sabedoria são suficiente para nosso bem viver. Mas não estamos perto fisicamente e ainda estamos isolados politicamente. Há que romper distância e há que congregar. Então junto com pequenos agricultores do sertão fizemos uma cisterna de 16 mil litros num ocupação sem teto de uma grande cidade e a chuva trouxe água que antes era buscada em baldes e carrinhos de mão. Nossas tradições de ser de esquerda não olha com a devida atenção para isto. Nos dão palavras, conselhos políticos, nos ensinam sobre correntes ideológicas, mas parecem não se ater à água. Quando nós pensamos em radicalidade, estamos falando sobre o radical, o fundamental dentro do que somos. A radicalidade do ser humano é o próprio ser e não há esse ser sem água. Isto é um fundamento e nós aprendemos. E cada comunidade tradicional o sabe. E todos os assentamentos, quilombos, comunidades extrativista estão avisados por isto. Está na memória ancestral, está no espírito daquele povo. Não precisamos de livro sobre isso — mas se tiver, leremos.

Sabemos que há muita gente que não quer luta. Pensamos que vai bem o mundo para essa gente sem a luta. Não há muito o que fazer. O proselitismo político não nos parece vindouro. Os frutos do convencimento pela palavra são cobranças e mais cobranças com palavras, nem sempre as melhores palavras. Há que fazer, que construir o bem viver hoje, aos poucos, um pouco hoje, um pouco amanhã e sentar para refletir se não melhorou nosso território isto e aquilo que fizemos. Há alguns anos fomos plantar num território pesqueiro com pescadoras e pescadores amigos que temos. Eles tinham sido expulsos de suas terras há duas gerações e não mais tinham tanto a lida com as sementes, com o roçado. A memória tinha passado de avó para mãe e de pai para filho, assim que alguns plantavam bem — oh como plantavam! Mas precisavam de ajuda, não tinham sementes crioulas e fazia tempo que não tinham um mutirão com muita gente da comunidade construindo algo coletivo. Pois então, soubemos que hoje fazem mutirão todo mês, que estão a construir uma horta comunitária e que falam de bem viver em suas palavras.

Estamos chegando perto de nossa VI Jornada de Agroecologia da Bahia. Ali no coração das terras Payayá vamos encontrar muitos companheiros, muitas companheiras que não vemos há algum tempo. Nós nos juntaremos em Utinga, na Chapada Diamantina, entre 16 e 20 de outubro e queremos falar-lhes um pouco sobre “Terra, Território, Águas e Ancestralidade — tecendo o Bem Viver”. Nossos mais velhos e a voz dos mais velhos do que nossos mais velhos nos levaram a esta terra. Disseram-nos que era ali que deveríamos nos reunir e iremos. Falamos já sobre a água. Importa também falar sobre a ancestralidade. Também aqui o jeito de ser de esquerda que aprendemos não liga tanto para isto. As fidelidades ideológicas remontam a homens brancos europeus, quase nunca ao seu próprio ancestral que há muito mais tempo lutou contra o surgimento do capitalismo. Este sistema cruel não existe sem a escravidão e o extermínio de povos indígenas e negros. Nossos antepassados tombaram lutando contra o capitalismo, ainda que muitos não usassem esta palavra. Há uma razão, as palavras possuem suas histórias e os sistemas de injustiça possuem muitos braços. Então Marcelino Tupinambá morreu lutando defendendo o território de seu povo das investidas de fazendeiros e cruéis negociantes especuladores que viviam da expansão violenta da cacauicultura dos coronéis. Não há capitalismo no Brasil sem o latifúndio agrário-exportador, se Marcelino foi martirizado por isto, então lutou contra o capitalismo. A Guerreira Zeferina, por outro lado, criou o Quilombo do Urubu onde se federaram índios, negros fugidos, livres rebeldes, etc. Ela se insurgiu contra a escravidão e não há nenhum traço mais característico do capitalismo brasileiro, da sanha perversa de nossas elites, do que a escravidão. Se Zeferina lutou contra escravidão, então lutou contra o capitalismo. Nossas referências são ancestrais e isto advoga sobre nossa jornada que nada mais é do que um passo para o nosso futuro de bem viver e ao mesmo tempo um passo para o passado, para a memória de nossos mais velhos. Não há bem viver se nossos mortos não podem ser lembrados e estarem vivos em nossa caminhada.

Assentamento Terra Vista (Arataca-BA) em 1998 e em 2016 — transição agroecológica em perspectiva.

Então, iremos nos ver em outubro, quando passar o tempo da chuva. Toda a terra estará fértil e agradecida. Também estaremos neste reencontro. Nossa forma de ser esquerda, fazer esquerda é agradecida. Nosso território é tão rico, nos tem dado tanto que não há outro caminho ao não ser agradecer. Uma amiga nos falou que seu território pesqueiro é tão rico que tudo que planta dá e ainda há o que dê que não seja plantado. Veja, pois, como são os frutos do mar, não é? Isto é agradecimento. Ela nos falou que só lembra que é pobre quando sai do território e isto é uma verdade essencial. Não apenas nós sabemos que nossos territórios são ricos, também o sabem os ricos, as elites, os grandes empresários. Não há uma comunidade hoje que não esteja ameaçada por “grandes empreendimentos”, é assim que eles se chamam. Estão a nos dizer que vão gerar emprego e renda com os recursos de nosso próprio território para nós mesmos. Veja quão cínicos são. Se nós o quiséssemos, teríamos feito nós. Queremos, ao contrário, nossa mata em pé, nossos rios limpos, nosso estuário cheio de espécies que nos fazem bem. Não queremos mineradoras, resort, carciniculturas ou coisas do gênero. Acaso vocês não estão a ver que agora não nos matam apenas, matam os rios para que morramos todos nós que vivemos às suas margens. O Paraopeba e o Doce sabem do que falamos. E com eles tantos, tantas que não podemos contar. Não se enganem com os números oficiais. Muitos morreram nos dias da catástrofe, outros depois e muitos seguiram morrendo sem o rio com o qual não sabiam viver sem. Vocês não veem que agora queimam toda uma floresta, seus bichos, suas plantas? E não veem que morrem pessoas que vivem em outros territórios tão longe de lá com a fumaça? Não há mais limite. Então se eles acham ouro em nossas terras, como são cínicos, eles duvidam que nossas terras sejam nossas, eles nem mesmo acreditam nos documentos oficiais que eles mesmo nos deram e que dizem que a nossa terra é nossa. Nos falam de royalty, de grandes lucros que teremos, de tudo, só não nos falam das barragens de dejetos ou de como desmatarão para lucrar. Ocorre que nossos rios e nossas árvores são encantados, são onde estão nossos ancestrais e nós não vendemos nossos ancestrais, nós não traímos nossos encantados. Assim, não podemos fazer nada por vocês. Queremos o rio vivo e a mata em pé.

Não há ilusões ou falsas esperanças. Ninguém virá a nos salvar e nenhum partido de esquerda conseguirá conter este desmoronamento do Estado-nacional brasileiro. Por isto, precisamos construir o bem viver. São nossas riquezas de nossos territórios que nos sustentarão. A batalha que estamos vendo no horizonte não pode ser batalhada por um povo que não está a comer bem, a estudar com dignidade e a ter momentos felizes junto com seus amores, seus amigos. Por isto o território é tão importante. É de lá que vem nosso trabalho, nosso bem viver. O medo é a palavra dos maus governos — eles são muitos. E nos querem fazer crer que é tolo ter esperanças. Então eles sobem nos helicópteros e acertam nossos jovens sem motivo algum e já não estão a esconder isto, pelo contrário, fazem publicidade com a perversidade. São tempos de loucura. O errado vira o certo para os tolos, ignorantes. Se fazem genocídio, então dizem que é um atacante na hora do gol, não escondem, não pedem desculpas, não ligam mais em fingirem que são cristãos. E muitos de nós não estamos indo à luta porque tememos perder nossos jovens. Acaso não estamos perdendo todos os dias? Não temos chorado este luto a cada fim de tarde? Nosso encontro também é para abraçar as mães que perderam seus filhos, para lembrá-los e lembrá-los sem julgamentos. Nos tiraram o direito até do luto digno. Mancham os nomes de nossos filhos, queimam suas reputações para legitimar a máquina de morte, o sistema do genocídio do povo negro. Precisamos dizer uma e outra vez que não são isto e aquilo, que são vítimas enquanto os jornais dizem para muito mais pessoas que nossos filhos são bandidos. Nossas mães de maio não tem direito a dor do luto. Estão ocupadas demais sustentando os filhos que viveram enquanto explicam ali e acolá que seu filho nada tem que ver com o que dizem e se o tem, não tinha outro jeito. Não julgamos. Nos unamos a esta dor e saibamos de um informe que vem desde África: há gente que tem medo que o medo acabe. Os poderosos temem este dia. Temem que não tenhamos mais medo.

E isso tem algo que ver com as mulheres. Por onde temos andado elas são as protagonistas da luta, do cuidado com o território. Aprendemos que quando as mulheres cuidam das sementes, então é certo que haverá sementes para nós e para nossos amigos na próxima lavoura. Falamos sério, esta é nossa experiência. Não tem havido reuniões nos territórios onde elas não sejam maioria entre os que conclamam a luta, também tem sido pelas palavras delas que a aliança tem chegado onde jamais imaginamos. Isto fala muito sobre nosso tempo e diz muito sobre como lutar. As companheiras da Rede de Mulheres da Teia dos Povos possuem uma centralidade que é apenas reflexo do que vemos em todo Brasil. Temos que conversar com os homens, parar o machismo onde quer que se reflita e cuidar para que a caminhada das mulheres não seja interrompida pelos maus homens e sua cultura perversa. Neste caminho ainda estamos aprendendo, ainda não falamos com grande sabedoria, mas avançaremos até lá. Para isto temos que falar mais baixo do que nossas irmãs, nossas companheiras. Aprender uma outra educação que não nos deram.

Bom, vamos nos ver em outubro, ao final das chuvas. Vamos dizer no coração da terra dos Payayá que há outro caminho, que basta de nos matarem. Vamos lá, como ensina a mestra, combinar de não morrermos. Não há conciliação com a máquina de nos matar. Vamos nós mesmo construir o caminho do bem viver. Esta palavra aqui é para chamar-lhes para a aliança e para pedir que vá a Utinga entre 16 e 20 de outubro, pois lá falaremos e cantaremos juntos. Lá falaremos nós e nossos ancestrais. Teceremos uma dignidade que não pode ser outra que não defender a terra, o território e as águas. Faremos isto em memória de nossos mortos, construindo o bem viver.

Cartaz da VI Jornada de Agroecologia da Bahia em Utinga-BA. Mais informações em http://teiadospovos.com.br

Obs: Escrevo como um dos articuladores da Teia dos Povos, mas não estou falando pela articulação. Então estas palavras são apenas minha visão atual e meu chamamento para a nossa Jornada!

Por: Erahsto Felício
No medium.com