Live da Teia dos Povos com lideranças femininas discute cuidados em comunidades tradicionais frente ao coronavírus

Live da Teia dos Povos com lideranças femininas discute cuidados em comunidades tradicionais frente ao coronavírus

Articulação de povos tradicionais e movimentos sociais, Teia inicia uma série de lives no youtube para debater estratégias de sobrevivência das comunidades na Bahia

Por Rafique Nasser

Os princípios de prevenção às epidemias já estão presentes nas culturas afro e indígenas da Bahia, e a atual pandemia por conta do coronavírus só vem demonstrar a importância dos saberes tradicionais na promoção da saúde em suas comunidades. Essa conclusão emergiu do debate “Educação, Ancestralidade, Bem-viver”, tema do 4° Diálogo dos Povos, da Teia dos Povos, rede que integra lideranças comunitárias e ativistas dos movimentos sociais da região sul da Bahia. A série de lives tem trazido discussões sobre temas variados, relacionados às vivências e perspectivas das comunidades tradicionais na Bahia e no Brasil.
No programa da última quarta-feira (29/04), as convidadas Mametu Kafurengá, do Terreiro Caxuté, de Valença (BA), Nádia Akauã Tupinambá, da Terra Indígena Tupinambá de Olivença (BA), e Maria Muniz, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, de Pau Brasil (BA), falaram sobre como as comunidades afro e indígenas estão enfrentando a pandemia do Covid-19 e como a educação baseada na oralidade e prática de costumes tradicionais são relevantes para as os povos.
Para Nádia Akauã, mestra em curas tradicionais e educadora, o enfrentamento de pandemias delicadas não é novidade para os povos indígenas. “Quando construiu a ponte de Olivença, começou a guerra biológica”, declarou, referindo-se à ponte que liga a cidade de Ilhéus ao distrito que é referência para o território tupinambá. Segundo ela, a obra gerou para os indígenas uma série de males desconhecidos anteriormente, como tuberculose e varíola, o que teria culminado nas mortes de várias pessoas da comunidade.
Iniciando sua participação com o canto “Pataxó Guerreira”, Maria Muniz, mestra de reza, guardiã de memórias e educadora, reafirmou a resistência das comunidades frente à doença. “Nós, indígenas, e todos aqueles guerreiros que lutam pela terra, estamos aí a qualquer custo, mesmo com essa dificuldade, gritando e dizendo: nós queremos espaço, nós queremos direito”.
Mametu Kafurengá, líder religiosa do Terreiro Bantu-indígena Caxuté e pedagoga, explicou que a comunidade está atualmente fechada aos visitantes e alertou que os princípios para prevenção de doenças contagiosas em sua comunidade são algo constante, já que seus costumes ancestrais prescrevem uma série de medidas higiênicas para as pessoas ligadas às tradições religiosas de matriz africana. “Quando chega no terreiro, primeiro tem que tomar seu banho para falar com a mãe de santo”, lembrou. “Nós precisamos fazer pacto pelas nossas vidas”, completou a Mametu sobre a importância do recolhimento neste momento de pandemia.

Educação e Ancestralidade
Educação e autonomia dos povos têm sido temáticas amplamente discutidas nos eventos e encontros realizados pela Teia, principalmente nas Jornadas de Agroecologia, que teve sua 6° edição no ano passado sediada na cidade de Utinga, Chapada diamantina, nas terras do povo Payaya.
As três convidadas do 4° Programa “Diálogo com os Povos” realizam trabalhos de educação comunitária – baseada na oralidade e saberes passados dos mais velhos para os mais novos.
De Acordo com Maria Muniz, a educação realizada entre os Pataxó-Hã-hã-hãe é “diferenciada”, contrastando com o modelo educacional formal, e envolve em seu processo os ensinamentos de respeito aos anciãos. “Os governantes não respeitam as nossas tradições, a nossa cultura, o nosso direito, a nossa maneira, o nosso gingado. Então ainda sinto muita tristeza, por que eles acham que temos que caminhar da forma deles e fazer aquilo que eles querem. Mas nós temos o direito de dizer e fazer o que nós queremos e o que achamos certo para o nosso povo”, criticou.
Muniz conta que começou a lecionar em 1984 na sua aldeia e foi a primeira professora de sua comunidade, passando por várias dificuldades para realizar seu ofício. “Eu dava aula era nas retomadas, era na beira do rio, era debaixo de pé de árvore, era em curral, era em casa de farinha. Então, eu nunca tive sala de aula. A minha sala de aula era essa”, relatou.

“A palavra amor tem quatro letras, mas quatro letras difíceis”
– Maria Muniz

Com uma longa experiência no ensino em comunidades de diversas etnias, Nádia Akauã tratou, entre outras coisas, da exclusão da história indígena do currículo formal das escolas. “É importante a gente pensar que a nossa educação, desse país, ela não tem nada a ver com a gente, ela nos excluiu todo o tempo”.
Nádia também falou da importância da simbologia dos instrumentos indígenas na educação das crianças de seu povo. Para exemplificar, citou o maracá como uma ferramenta de comunicação para os mais jovens. “Cada criança tem seu maracá, cada criança sabe o momento do respeito. Quando toca o maracá é a hora de unir, reunir a roda para ouvir as histórias, para ouvir o mais velho, para ouvir algo da ancestralidade, algo que ele não conhecia”.
O respeito à presença feminina é um elemento fundamental na prática educacional indígena, segundo as debatedoras. “Gosto muito de falar que os homens têm que respeitar o útero de que ele nasceu. Ele tem que respeitar, principalmente honrar o útero que está do lado dele, que ele escolheu para ser companheira dele. Porque o útero não é só um músculo, não é só um órgão. Ele é esse templo sagrado. Está dentro de nós, e os homens saíram dele”, explicou Nádia.

“Precisa pedir licença para entrar no templo, não pode violar o templo. Ninguém entra no templo fazendo algazarra”
– Nádia Akauã Tupinambá

Mametu Kafurengá tratou sobre os métodos educacionais, coletivos, realizados na comunidade Caxuté. “A pedagogia do terreiro tem o caráter que todos têm o que ensinar e todos têm o que aprender”, disse ela.

“Quem somos nós sem os nossos pretos e pretas velhas, sem os nossos parentes, sem as nossas crianças”
– Mametu Kafurengá

Território e demarcação
Maria Muniz aproveitou para criticar o presidente da República quanto às demarcações das terras indígenas, já que diversas autoridades do governo têm declarado ser contrárias a medidas de proteção e preservação desses territórios – previstas na Constituição Federal. “Quem é (Jair) Bolsonaro, para ele querer dizer que ele é o tal e quem é alguém que está junto com ele dizendo que não vai entregar nossas terras? Nós queremos demarcação já, e isso vai acontecer muito breve porque nosso pai Tupã está aí”, afirmou.

Programa Diálogo com os Povos
Nos programas anteriores já foram discutidos os temas “Genocídio, Periferia e Água”, tendo como convidado Hamilton Borges (dirigente do Reaja ou Será Morta! Reaja ou Será Morto!), “A Caminhada da Teia até Aqui”, com Joelson Ferreira (MST) e Jorge Rasta (Casa do Boneco) e “Encontro das águas com Lideranças do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais”, com Elionice Sacramento, Bárbara Ramos e Marizelha Lopes (MPP – BA).
Para assistir às próximas edições de entrevistas ao vivo, basta se inscrever no canal Diálogo com os Povos e ativar as notificações no YouTube. Para consultar mais informações, a Teia possui perfis no Twitter e no Instagram, além do site oficial teiadospovos.com.br.

 

 

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