Caminho das Sementes #3 – SOMOS COMO SEMENTES

Neste terceiro texto da série sobre a importância das sementes, acompanharemos a reflexão de uma jovem mulher indígena na luta pela conquista da soberania alimentar, da terra e território.

Por Talita Tamikuã Pataxó, T.I Comexatibá – Prado, Extremo Sul da Bahia. *

Eu nasci em uma cultura e tradição que tem como missão honrar a natureza, viver dela e para ela. Eu sou neta de pajé, uma pajé mulher, o que tornou minha conexão com a natureza mais forte ainda. Meu povo é um povo que honra muito a fartura e conta que antigamente era muita a fartura que a natureza oferecia. Uma fartura que vinha do mar até a terra. Sou de uma geração que encontrou só um pouco, bem pouco, dessa fartura. 

Eu me lembro de ver minha bisavó chorando na beira do jirau, eu era muito pequena, não entendia. Ela falava que chorava porque tinha dó de seus netinhos, porque viriam tempos difíceis. Hoje eu entendo cada lágrima dela. Ela chorava o nosso alimento que, a cada dia, diminui. Hoje, eu luto por soberania alimentar para o meu território, junto de um povo sábio e forte que sabe a hora certa de plantar e colher, que pede licença para adentrar a natureza.

Sem território, não há vida

Estou na beira de um lugar conhecido por “Costa do Descobrimento”, onde houve o primeiro contato dos malditos portugueses. Contam os nossos mais velhos que, quando os portugueses chegaram – imundos e doentes -, os povos originários cuidaram e trataram de seus males. Foi a medicina indígena que curou muitos deles. Em troca, recebemos ódio, ira, exploração e genocídio. Em nome de uma suposta civilização, os povos originários tiveram suas línguas e modos de vida perseguidos. Alguns, inclusive, foram declarados extintos, o que é uma grande mentira. Essa palavra, “civilização”, é muito pesada para mim. É o mesmo que colonização. Não por acaso, nós indígenas desconfiamos dos colonizadores, que já trouxeram no seu interior este ódio. O colonialismo persiste atualmente e segue tentando nos exterminar. Por isso, eu não acredito que haja diálogo e parceria com o latifúndio, com o capital, com o Estado – isto tudo representa a continuidade do sistema colonial.

Desde o início da colonização, nosso povo sofreu com a devastação da Mata Atlântica e o roubo de madeira nativa. Mais tarde, por volta de 1884, começou também uma brutal extração de areia monazítica. Oficialmente, a colonização já havia terminado, mas essa “nova” exploração intensificou o que já acontecia antes, ou seja, a destruição da floresta. A mineração da areia foi encerrada em 1990, mas deixou grandes marcas. 

Atualmente, nossa área está sendo devastada pelo eucalipto. Na metade do século XX, grandes empresas, como a Flonibra e a Brasil-Holanda, chegaram na região. A gente sofre muito com essa monocultura – a indústria da celulose tem destruído nossas nascentes, nossos rios e nosso solo e, muitas vezes, isso afeta as nossas roças. Também temos que enfrentar os grandes hotéis e a especulação imobiliária que têm buscado proibir o nosso acesso à praia. Nós, os povos nativos, aos poucos, estamos sendo impedidos de ir em busca do pescado. 

 

Situação da Mata Atlântica no Extremo Sul da Bahia em 1959 e 1974 (floresta em preto) / Fonte: Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação – T. I. Comexatibá, 2007.

Tem uma música cantada por Tia Maria Mayá (Pataxó Hã-hã-hãe) que diz “o índio quando chora, é por falta de terreiro”. O terreiro é essencial para a nossa liberdade, para a semente, para todo o encantamento, para o respeito, para manter a conexão.

Tanto no litoral – o ambiente praiano – quanto no sertão – adentrando a mata -, grandes forças econômicas, com o apoio do Estado, buscam saquear nossa região. Por injustiça do Estado Brasileiro, não temos ainda nosso território demarcado. Sem território, não há vida. Nossa maior luta é nosso território, que está devastado pelo capital. Já são 520 anos para permanecer firmes com esses ensinamentos da natureza transmitidos por elas, minhas ancestrais. Hoje, minha missão é mais necessária. 

Todo índio tem ciência

O povo Pataxó percorreu muitos territórios e recorreu a outros parentes para continuar resistindo, por conta das expulsões e massacres. Nossos antigos criavam suas roças, mas eram obrigados a abandoná-las e a se deslocar para outros lugares. Cada vez que um de nós foi obrigado a deixar um sítio já habitado para procurar proteção e meios de vida em outra área, aquele espaço ficou reflorestado. Faz parte da nossa tradição Pataxó marcar os lugares por onde passamos com o plantio de uma rica diversidade de plantas, principalmente árvores frutíferas, o que também preserva a fauna. Por isso, a gente vê que na área do mapa onde estivemos e estamos presentes, há um reflorestamento muito grande.

Nós indígenas temos um papel muito importante dentro da agroecologia. A gente não faz roça apenas para a gente. No nosso processo de cultivo, o reflorestamento é o objetivo principal. Nossas roças incluem as plantas medicinais e as árvores nativas da Mata Atlântica que, muitas vezes, também fazem parte da medicina Pataxó. Também cultivamos sementes que são usadas para fazer artesanato e outras que são alimentos. 

T.I. Comexatibá, Uma criança alimenta a esperança. Foto: Talita Tamikuã Pataxó

Tem uma cantiga que fala que todo índio tem ciência. Há a sabedoria dos povos em relação ao calendário lunar, em relação também às marés e em relação ao tempo adequado para pegar siri e pescado. A mesma coisa na terra, ou seja, em qual lua pode plantar, quando teremos uma nova chuva, etc. Nós não temos irrigação. A gente segue a técnica da natureza de sermos avisadas por ela e de plantar no tempo dela. Ela mostra que esse processo da roça nunca finda: sempre tem roça, sempre estamos plantando. Esse é o nosso jeito de nos conectar com a natureza.

Troca de saberes, trocas de sementes

Quando conheci a Teia dos Povos, o que me chamou atenção foi a união entre povos, a troca de saberes e a variedade de sementes crioulas que, até então, eu não conhecia. Descobri que dentro dessa grande diversidade havia muita história. Inclusive a nossa. 

Troca de Saberes. Juventude Pataxó no Assentamento Terra Vista, 2019. Fotos: Bárbara Lara

Minha vó já havia me contado sobre os laços dos povos originários com os povos africanos. A nossa formação enquanto Pataxó tem sangue negro. E o povo negro é um dos povos que está dentro da Teia dos Povos – uma união entre os indígenas, os quilombolas, os ribeirinhos, dentre outros. 

Nessa caminhada, resolvi perguntar os mais velhos, os anciãos, quais sementes eram presentes aqui no tempo de antigamente e que talvez tivessem sumido, para ver se eu as encontrava. Alguns deles citaram o milho e o feijão e eu foquei nessas duas sementes. Quando eu cheguei aqui com essa semente, uma parente me falou: “onde você arrumou essa semente? Essa semente papai plantava”. Ela reconheceu que essa semente é ancestral, uma semente antiga. 

Talita e um banner da Teia dos Povos em atividade realizada no Assentamento Santa Fé, Prado – BA, 2018. Foto: Bárbara Lara

Acredito muito no bem da mãe natureza e a semente é só um dos diversos universos dela. O poder da semente é uma expressão do amor ancestral deixado pelos nossos.

Muitas de nossas sementes resistiram, apesar da devastação de nosso território. Ao longo de toda a crueldade da colonização, outras sementes quase desapareceram, junto às tentativas de extermínio do povo. Através da união com outros povos, a gente tem reencontrado nossas sementes e estamos retomando esses cultivos. Nossas sementes são memória viva de um povo guerreiro. Hoje, eu tento trazer essas sementes para o nosso território e, enquanto jovem, busco fazer essa troca de saberes, que é transmitir o nosso conhecimento e receber o do outro também. O caminho dos povos indígenas é o encantamento, a liberdade, o respeito e comunhão com a mãe terra. O caminho da Teia dos Povos é fortalecer nossas resistências e saberes. Eu pertenço a essa grande aliança que luta pelo direito à terra, pela soberania e pela agroecologia. Nós somos como sementes que uma hora vão crescer, florescer, virar terra e deixar outras sementes.

* Sobre a autora

Talita Tamikuã Pataxó é articuladora da juventude na T.I. Comexatibá, artista, educadora popular e técnica em Agroecologia pela Escola da Floresta, do Cacau e do Chocolate (CEEP-Milton Santos). Seu instagram é o @tamypataxo.

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