Diários da Pandemia #14: Vivian Fraga e a luta pela Floresta do Camboatá (RJ)

A luta pela Floresta do Camboatá (RJ) sob a perspectiva dos Povos Originários e dos Povos de Matriz Africana.

A Floresta do Camboatá

A Floresta do Camboatá é uma remanescente da Mata Atlântica em áreas planas e baixas. Todo o resto de Mata Atlântica que temos hoje se encontra em áreas montanhosas.

As outras áreas de florestas remanescentes não apresentam a mesma diversidade, de fauna e de flora. Isto já comprovado em estudos do Jardim Botânico (RJ) e UFRJ.

Trata-se de uma floresta no meio de um centro urbano, numa região extremamente populosa. Onde não tem verde. Temos uma carência absurda do verde.

Esta floresta existe como uma dádiva de sobrevivência. Uma área correspondente a 200 campos de futebol, com mais de 200 mil árvores, espécies ameaçadas de extinção.

Árvores como Jataí, Jacarandá, Braúna. Animais como Trinca-Ferro, Sapucaia, Guaxinim, Jacaré de Papo-Amarelo, Capivara…

E também os peixinhos Rivulidae. São os chamados peixinhos das nuvens que sobrevivem em espaços onde nem há água. Esperam a época chuvosa para terem seus ovinhos eclodidos. Estes peixinhos foram encontrados nas áreas alagadas da Floresta do Camboatá.

A Floresta do Camboatá é um eco-sistema essencial. Não apenas em si própria, mas para a população em torno.

Principalmente por garantir um equilíbrio climática. Sua localização é numa região que divide a Zona Norte da Zona Oeste do Rio. É considerado o local mais quente da cidade. O bairro de Bangu é conhecido por apresentar sensação térmica de 50°. É quase como estar dentro de um forno.

Ainda assim querem derrubar a Floresta, que funcionaria quase como um ar-condicionado natural para equilibrar o clima desta região.

Além disto, esta área do entorno da Floresta do Camboatá sofre com constantes inundações e alagamentos, provocados pelo excesso de asfalto e de cimento. Se não há terra, não há absorção das águas das chuvas. Com a derrubada da Floresta, esta área vai sofrer ainda mais.

O projeto da construção de um autódromo na área onde atualmente está a Floresta remonta a governos anteriores.

Como justificativa se apresentou a necessidade de substituir o Autódromo de Jacarepaguá, que foi demolido para as Olimpíadas de 2016. Um dos “legados” dos mega eventos. Legado que ficou como elefantes-brancos sem qualquer serventia para a população, a não ser absurdos e violência de remoções forçadas.

A justificativa para a construção do autódromo é que a região seria perfeita por ter o IDH mais baixo do Rio de Janeiro. Mas não é construindo um autódromo que se vai melhorar as condições de vida da população.

Os empregos gerados pelo autódromo são restritos aos dias que ocorrem os eventos. Durante todo o resto do ano inteiro não se gera emprego.

Como isto vai melhorar a educação? Se você quer melhorar a educação você constrói escolas e valoriza o profissional de educação. Mas estamos há 7 anos sem reajuste salarial para o setor!

Os argumentos para a construção do autódromo são falaciosos, mentirosos.

O Movimento SOS Floresta do Camboatá e a luta sob a perspectiva dos Povos Indígenas e dos Povos de Matriz Africana

Este movimento surge como uma maneira de garantir a sobrevivência desta floresta, garantir que não seja construído este autódromo.

O Movimento tem toda uma análise sobre a importância da Floresta, com participação de técnicos de várias especialidades. Também uma assessoria jurídica composta de advogados ambientalistas que estão comprometidos com a causa.

Entretanto, não podemos perder uma perspectiva essencial. Esta perspectiva passa pela ancestralidade e a História dos Povos Originários e de Matriz Africana.

Esta perspectiva trabalha com o sagrado desta terra. O quanto esta floresta é sagrada. Para isto é necessário trazer a luta dos Povos Indígenas e dos Povos de Matriz Africana, com sua relação com a terra.

São dois grupos para o qual a terra é a sua sobrevivência. A nível de ancestralidade, a nível de relação com o mundo.

A floresta é a própria existência destes grupos. O indígena não pode existir sem a terra, porque a terra para ele é o próprio existir.Não são coisas separadas. São coisas unidas. Destruir a terra é destruir o sagrado.

Quando você pensa nestes Povos em suas identidades religiosas, você pensa que a árvore, as plantas, o mar, os animais, eles não estão separados. Esta é a grande diferença com o colonizador, que se afasta da natureza para submetê-la.

Nas culturas dos Povos Originários e de Matriz Africana a natureza não está submetida ao homem. Homem e natureza compões de fato o mesmo ser.

A natureza é uma perspectiva de suas existências. Se não tem a árvore, também não se tem a sobrevivência.

É este outro olhar que trago para a luta. Temos um olhar muito técnico, muito jurídico, mas muito pouco sensível para este outro campo de visão.

A partir de 1999 a Mata Atlântica foi considerada um Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Só que precisamos entender que ela também é um patrimônio étnico-cultural dos Povos Indígenas e de Matriz Africana. Povos que são essenciais para a sobrevivência das matas.

Sempre onde há preservação das florestas, ali sempre vai ter também a presença dos povos originários. Porque eles não tem a noção do acúmulo, não tiram da terra mais do que o necessário para sua sobrevivência. E cuidam da terra!

O homem ocidental não tem esta noção de equilíbrio com a natureza. Não tem uma relação espiritual com a natureza. Se uma área não está gerando lucro, é considerada uma área abandonada.

Por isto houve desmatamento de várias áreas florestais desde o início da colonização.

Primeiro a extração do Pau-Brasil, quase levando esta árvore à extinção. Depois o plantio da cana-de-açúcar. A extração do ouro e diamantes. Posteriormente, a plantação do café.

Quantos milhares de hectares foram destruídos para que esta relação de submissão da natureza pelo homem branco gerasse o lucro?

E quanto da cultura e da relação do sagrado destes Povos Originários foi perdida e foi arrancada deles?

O objetivo é trazer uma outra noção sobre a luta pela preservação da Floresta do Camboatá, numa visão do sagrado indígena e das culturas de matriz africana.

Para os Povos Originários todos somos parte da natureza. E se ela é destruída o entendimento é estarmos destruindo a nós mesmos. A floresta é uma entidade viva. O uso da terra jamais é abusivo.

Estas áreas verdes representam uma relação cosmológica. A Terra é a grande mãe. Ela que gera vida, que gera alimento. Ela é divina.

Por isto o que queremos é acrescentar esta outra perspectiva à luta, para que alcance outros grupos também. O objetivo é trazer de volta a noção do sagrado.

E neste momento eu peço licença para falar um pouco sobre o Povo de Matriz Africana. Eu sempre defendi que cada povo tenha direito a sua própria fala. Sempre priorizo que cada povo possa falar de si e de sua perspectiva do mundo.  

Já o sagrado africano entende a natureza como um grande altar, não difere muito do sagrado indígena. Destruir a natureza é destruir o sagrado. É destruir as entidades sagradas: o mato, as folhas, os animais, as plantas, as árvores. Porque são também entidades espirituais.

Destruir a floresta é destruir a cultura religiosa.

Assim, as florestas são também essenciais para valorização e proteção das diferentes expressões de cultura, que conferem identidade as estes diversos povos que a ele estão relacionados.

Destruir uma floresta é destruir a memória de um povo. É destruir a memória dele, a ancestralidade que está ligada a terra e a floresta. A floresta é um patrimônio para além do material. É a energia a qual aquilo está relacionado.

É como se você entrasse numa igreja católica e destruísse um altar. É esta a analogia.

Neste cultura não se pretende de forma nenhuma dominar e domesticar a natureza. Esta distância entre o homem e a natureza é o que traz doenças. Inclusive as grandes pandemias, como a que estamos vivendo hoje, são resultado deste afastamento.

A História gravada em nossos corpos

Após tantos séculos de dominação e de estupros, nós carregamos em nossos corpos as marcas dessa colonização. Temos em nosso corpo as marcas dessa colonização.

Somos um povo de uma mistura cultural muito grande.

Minhas ancestrais que foram estupradas deixaram de herança para mim a cor de minha pele clara. Muitos são brancos e tem os cabelos crespos. Muitos são dourados, da cor avermelhada, com um fenótipo indígena, mas tem os cabelos crespos. Ou as vezes tem os olhos puxados como os indígenas, mas a pele escura do negro.

Carregamos em nossa pele a memória desta mistura. Carregamos nela também a lembrança de muita dor.

E carregamos em nossas consciências o direito de lutar por um mundo que seja diferente deste em que a gente vive hoje. Um mundo que entenda a floresta como um ser vivo.

Precisamos entender que estas terras são sagradas. E precisamos respeitá-las como entidades sagradas, por que elas assim o são.

O autódromo tem alternativas para ser construído. Se tem que fazer o autódromo, que seja em outro lugar.

Que a Floresta viva! Que a Floresta permaneça! Floresta do Camboatá, resiste!

referências:

SOS Floresta do Camboatá

VIDA (Voluntárixs Independentes em Defesa dos Ambiental)

Aldeia Maracanã

Vivian Fraga, indígena autodeclarada e reconhecida, faz parte do movimento de resistência indígena Aldeia Maracanã, professora de História da Rede Pública do RJ, onde desenvolve projetos sócio-ambientais, Mestre em Políticas Educacionais, fundadora do VIDA (Voluntárixs Independentes em Defesa Ambiental), integrante do SOS Floresta do Camboatá.

vídeo:

sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Vila São João – São João do Meriti (RJ)

Frente CDD: Cidade de Deus (RJ)

Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

.