Diários da Pandemia #17: nossos caros amigos (vídeo)

preciso escrever a vocês, caros amigos.

não através de alguma mensagem instantânea, pois esta logo postada é diluída de imediato no oceano anônimo do Big Data.

escrevo como um marinheiro que em meio ao naufrágio global foi acolhido numa ilha desconhecida, de onde atira ao mar uma mensagem, para ela flutuar dentro de uma garrafa em direção ao seu destino.

neste momento de pandemia, a morte se aproximou de todos nós. postando-se a um palmo de nosso nariz, nos encara fixamente nos olhos. e diz:

“- aqui estou. mas ainda não os toquei. vivam! vivam cada singelo instante de suas preciosas vidas!”

que tipo de vida temos vivido?

confinados por semanas naquele exíguo e solitário espaço, ao qual por costume se denomina como “lar”, já não há como negar uma condição de prisão domiciliar.

mas antes nossa própria existência já não era um cárcere privado?

definhávamos sequestrados por um vírus parasitando nosso corpos, até ser sugada toda nossa energia vital, findando por nos expelir como dejetos descartáveis.

a quarentena nada mais fez além de expor uma obviedade: já estávamos mesmo mortos…

é a este mundo para o qual pretendemos voltar? esta é a “normalidade” que desejamos restaurar?

mesmo se assim fosse, não haverá retorno.

aquele mundo de antes esgotou seu prazo de validade. e um intrépido mundo novo se anuncia. ainda mais brutal, desigual, excludente e opressor.

o Capitalismo colidiu com a fronteira terminal de suas contradições intrínsecas. a queda insustentável da taxa de lucro já não pode ser contida, nem mesmo com a selvagem expropriação dos recursos humanos e naturais.

embora tenhamos a sensação de estarmos vivendo num apavorante filme de terror, a COVID-19 é apenas um trailer frente ao colapso ecológico.

junto com o armagedon climático virão pandemias ainda mais mortíferas, acompanhadas de inevitável decomposição sócio-econômica: peste, fome, guerra e morte…

estamos fadados à extinção?

em meio às nuvens tóxicas do grande naufrágio global, seria possível navegar ao encontro de ilhas de utopia?

aquele mundo de horror está moribundo. como um dragão mortalmente ferido, se contorce entre urros aterrorizantes, recusando-se a morrer.

com ele também falece seu fundamento primordial: o antropocentrismo.

se quisermos construir um futuro, devemos nos recolocar em nosso devido lugar: não somos o ápice da criação, não somos o topo da cadeia evolutiva, os mundos não giram ao nosso redor.

ou nos reencontramos com a Terra, ou desapareceremos juntos com o abominável mundo que criamos.

não há como re-existir sem o resgate de uma esquecida sabedoria ancestral: somos uma pequena parte da vida, e nem mesmo a parte mais importante.

não para meramente sobreviver, mas enfim para chegarmos a viver plenamente é imperativo tomar como princípio norteador de nossas existência que a vida não nos pertence: é um breve sopro passando por nosotros.

há uma rota de navegação para as ilhas de utopia, com as quais haveremos de tecer a Teia dos Povos. este caminho marítimo para Hy-Brazil Pindorama se inicia com uma nova aliança, através da qual nossos pés voltam a caminhar junto com a terra.

para isto precisamos fincar raízes naquele território com o qual desenvolveremos laços. laços com a terra, laços com a água, laços uns com os outros.

no território onde vivemos. na terra que amamos e onde sofremos. a ela defenderemos e preservaremos, pois sem ela não poderíamos estar vivos.

queremos um futuro?

pois o futuro já não pode ser o desdobramento do que já existiu. o futuro é o que nunca houve.

o futuro é Hy-Brazil Pindorama.

um arquipélago fundado sob os alicerces da biodiversidade e do multiculturalismo. a primeira biocivilização da História.

não o Capital, nem mesmo o trabalho, como eixo fundamental em torno do qual a sociedade se organiza, e sim a própria vida.

adeus à Humanidade! bem vindos sejam os Seres da Terra: nossos caros amigos.

vídeo:

sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

acesse a série completa aqui neste link

Antonio Garcia é um nome próprio de batismo, apesar disto é anônimo nos terabytes de terabytes do Big Data, quase completamente unGoogleable. algumas poucas vezes torna-se nosotros, como arkx, sendo que este nunca é anônimo mas sempre não é um autor.

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