Diários da Pandemia #10: na linha de frente – Alto Xingu

A medicina do homem branco e o saber ancestral dos Povos Originários de mãos dadas na luta contra a COVID-19.

Hoje eu presenciei meu primeiro óbito por covid. Seu Ogopa, um pajé de 79 anos.

Fui para o Kuluene de avião, pois ele havia piorado. Estava saturando a 60%, cansado. Quando cheguei ele estava no oxigênio, mantendo saturação entre 60 e 70, apesar do tratamento contínuo.

Os pajés trabalhavam, a família fazia de tudo. Carinho, comida, cuidados. Seus filhos e netos estavam muito abalados, chorando. Entendiam que ele não deveria tomar aquele coquetel do Dr. Celso, “Eu sei que aquele remédio é prá piolho doutora”.

Fizemos antibiótico, corticoide, soro. Ele foi piorando, fora do oxigênio chegou a saturar 30%.

Seu filho, Manoa, também pajé, não para de trabalhar. Me conta que seu pai está ruim pois a alma do cunhado, que faleceu de COVID há alguns dias, havia chamado seu pai no enterro. Seu pai aceitou ir. Manoa tentou resgatar a alma do pai, mas não sabe se conseguirá. Ele entende que algumas pessoas vão morrer de coronavírus, talvez seu pai seja um deles.

Ele tenta mais uma abordagem, é a hora de sua mãe abraçar o pai. Ela vem de fora, Manoa a prepara para o abraço. Ela sobe na rede, abraça o marido por um bom tempo.

Todos entendem a gravidade, mas ele vai ser cuidado na aldeia, nada de hospital.

Noto sempre um menino pequeno com um pequeno defeito no nariz chorando muito, chego a ficar incomodada, “Por que esse menino quer tanta atenção?”

Seu Ogopa fala na língua, todos começam a chorar muito. Não entendo, mas penso que ele se despediu, avisou a todos de sua morte.

Ele está cansado, esta difícil respirar. Coloco Berotec na máscara, vou preparar mais 1 ampola de hidrocortisona.

Muitas pessoas estão ao redor da rede de Ogopa, todos querem estar por perto. Sabemos que não pode aglomerar, todos sabem. Mas não importa mais falar.

O cilindro de oxigênio cai, a extensão estoura, não chega mais oxigênio para Ogopa.

Saio para buscar outra correndo.

Quando retorno seu Ogopa não respira mais. Denise, enfermeira, implora que as pessoas se afastem, coloca o corpo no chão, começamos RCP (Reanimação Cárdio-Pulmonar).

Não tem mais batimento, seu Ogopa se foi.

O choro é coletivo, intenso, sofrido. Eu choro, Denise chora. Alguns gritam, uma mulher desmaia, se debate no chão de tanto sofrimento.

Abraço os filhos, abraço a equipe, por alguns segundos esquecemos das regras de afastamento que repetimos o dia todo.

Aquele menino com o nariz diferente continua chorando demais, mais do que todos.

O sofrimento é muito intenso, não ha vergonha em sofrer. Os filhos desmaiam nas redes, os familiares vem acariciar, eles melhoram. Alguns desmaiam por muitos minutos, depois gritam, choram.

Seu Ogopa é colocado em uma cadeira, banhado, seu cabelo cortado.

O choro coletivo não para, ele segue por horas. É possível ouvir a mais de 300 metros de distância. Carros chegam de outras aldeias, mais pessoas se juntam ao choro.

O corpo está pronto, limpo, arrumado, todo pintado, colorido, vestido como um guerreiro.

Descubro quem é o menino, seu filho adotado. A família não quis ficar com ele por conta do defeito no nariz. Me contam que os dois só andavam grudados o tempo todo. Ultimamente caminhavam pelas aldeias com os braços envoltos em ervas para afastar o COVID. Agora entendo aquele choro.

A urna chega. Hora da última despedida. Seu Ogopa está bonito, vai encontrar o cunhado.

Não consigo parar de pensar que foi uma morte bonita. Seu Ogopa foi muito bem cuidado em seu último dia de vida, todos que o amam estavam por perto. Nenhum hospital no mundo conseguiria promover essa morte.

Será que ele estaria vivo se tivesse ido antes pro hospital? Será que ele morreria pelo COVID em qualquer das situações?

Nunca saberei a resposta, mas penso que se pudesse escolher minha morte escolheria que nem Ogopa, na casa onde nasci, cercada por todos que amo.

***

 – Doutora, você tem que ver Walama hoje, ele não está bem.

Walama Kalapalo, 48 anos, indígena, cacique na aldeia Tanguro, hipertenso. Sofre com doença espiritual que limita sua vida há alguns anos.

Desde ontem esta cansado, não consegue dormir. Há uma semana atrás seu teste deu positivo pra coronavírus. Chegou a fazer oxigênio por um dia mas depois sentiu que não fez bem. Estava melhor, mas piorou.

Quando chego Walama está na rede, falando pouco, prostrado. PA 110×80, FC 112, saturação de oxigênio 71%, creptações na metade inferior dos dois pulmões.

Sair da aldeia para o hospital não é uma opção. Ofereço oxigênio, mas “oxigênio está enfeitiçado”.

– Na primeira vez que fez foi muito bom doutora, mas na segunda desmaiei.

Chamo o técnico de enfermagem indígena, conversamos sobre o oxigênio ser nossa única possibilidade de tratamento no momento. Ele conversa com Walama e os pajés na língua deles. Depois de alguns minutos todos concordam em fazer uma tentativa com o oxigênio. Se fizer mal, nós tiramos.

Iniciamos o teste e após 2 horas a saturação mantém em 71%, Walama se sente mal. Não tem jeito, esse oxigênio está mesmo enfeitiçado.

Os pajés começam seu trabalho. Eu fico do lado de fora, ouvindo ritual.

Cerca de 2 horas depois os pajés saem. Eles estão indo buscar o espírito do Walama na floresta. Voltam. A fome tá apertando a equipe, que ainda não almoçou e já são 16h. Alguns minutos depois que os pajés entram de novo na casa de Walama. Começamos a ouvir o choro conjunto das mulheres, parentes vindo correndo de outras casas. Meu coração falha, será que ele morreu?

Peço permissão e entro com cuidado na casa. Muitos estão chorando, mas Walama está vivo. Me explicam que os pajés não conseguiram fazer o espírito de Walama tocar seu corpo. Walama anunciou que não passaria dessa noite. Está desmaiado, muitas mulheres tentam ajudar.

Ele mantém os sinais vitais estáveis, mas não se comunica.

Os pajés retornam o trabalho. Aguardamos novamente do lado de fora.

Os AIS (Agentes Indígenas de Saúde) me pedem que durma na aldeia. Estão preocupados com o que pode acontecer. Aceitamos prontamente, mas preciso comer alguma coisa.

Eles me trazem aquele beiju quentinho com frango. Chega a esquentar o coração. Descanso alguns minutos enquanto os pajés trabalham. Vamos reavaliar quando for 22:30h.

Aproveitamos a hora de descanso prá conversar com Sickan, indígena daquela aldeia. Ele conta muitas histórias de sua trajetória na saúde do Xingu. Na hora combinada retornamos à casa de Walama.

Vemos à distância os pajés reunidos em roda na floresta. Entramos na casa. Os sinais vitais se mantém como ao longo do dia. Walama ainda não conversa.

Os pajés retornam e continuam seu cuidado. Se aproximam de Walama, dançam, entoam cantos.

Em algum momento um deles precisa sentar, sente-se fraco. Começa a falar muito na língua. Sickan explica:

– Os pajés agora acharam o feitiço na floresta. A cobra se aproveitou do corpo enfraquecido do cacique para piorar sua doença.

Eles conseguiram trazer o espírito de Walama de volta.

Fazemos uma última avaliação. Saturação de oxigênio 71%, FR (Frequência Respiratória) 46irpm.

Walama consegue dormir. Os pajés começam a comer. Nós respiramos aliviadas.

Na meia luz da oca, Danila, técnica de enfermagem da equipe, chuta o chocalho do pajé. O barulho é alto, a risada geral. A tensão se desfaz. Segundo os pajés, grandes cuidadores desse longo dia, sem o toque final de Danila a melhora do cacique não seria possível.

No dia seguinte Sickan nos conta que Walama teve uma visão, enquanto estava apagado no dia anterior. Ele viu que o homem branco que está matando o indígena, não a doença. Não pode deixar que os parentes saiam para a cidade. Não pode intubar ninguém. O cilindro de oxigênio está enfeitiçado, também não pode ser usado.

– Como podemos fazer então para ajudar no tratamento?

O AIS Rutina me responde:

– Doutora, o cilindro não pode ficar fora de casa. Não pode viajar aldeia. Ele tem que ficar protegido do feitiço, tem que vir da cidade direto pro Tanguro.


– Tá certo Rutin. Vou explicar à equipe sobre a proteção dos cilindros

Hoje, 2 dias depois do ocorrido, Walama mantém estabilidade do quadro. Está em uso de antibióticos e antitérmicos. Um cilindro novo chegou da cidade só pra ele. Melhora lentamente, já consegue se alimentar.

Os pajés seguem trabalhando diariamente, assim como Danila, que visita Walama duas vezes ao dia.

Isso que chamo de trabalho em equipe.

***

Tahugaki Kalapalo, mais conhecido como Amarildo, indígena, 41 anos, sem outras doenças, trabalhador da cidade de Canarana.

Ha 1 mês voltou para sua aldeia para se proteger do coronavírus que começava na cidade. Sua família mora no Kuluene, aldeia no Alto Xingu.

No dia 24/06/2020 a equipe de saúde entrou na aldeia Kuluene para avaliar os diversos casos de gripe que estavam surgindo. Há 3 semanas havia sido relatado o primeiro caso de coronavírus dentro do Xingu.

Amarildo estava gripado, com tosse, febre, cansaço e fraqueza, mas dizia que “o pior havia passado”.

Estava andando, conversando, lúcido. Sua pressão estava 120×80, FR 20irpm, saturação de O2 55%, pulmões limpos. Seu teste para coronavírus deu positivo.

Eu desesperada, ele tranquilo.

Peço que vá para o hospital, mas Amarildo diz que não.

“-Na cidade os médicos estão matando a gente. Nãao quero ir pro hospital morrer. Vou ficar na aldeia.”

Peço então que Amarildo vá até a escola para fazermos oxigênio nasal, mas é perigoso sair de casa quando está doente.

“- Quando o corpo está fraco pode pegar feitiço, não é bom sair de casa.”

Combinamos de trazer o oxigênio pra casa do Amarildo. Fazemos oxigênio por cateter nasal a 4 l/min. Em 3 horas sua saturação atingiu 98%.

Durante essas 3 horas começamos a conversar:

– Amarildo, estou preocupada. Esse coronavírus pode ficar muito grave em algumas pessoas. Com oxigênio baixo assim seus órgãos podem parar de funcionar e você pode até morrer.

– Mas eu sei porque eu fiquei doente assim, doutora.

– Por que, Amarildo?

– Eu cortei a árvore e ela não gostou. Eu senti.

Eu paro. Penso:

– Acho que é por isso que estamos todos doentes, Amarildo.

Deixo Amarildo dormir e combino de retornar pela manhã.

Na manhã do dia seguinte, após uma noite inteira sem suplementação com oxigênio, Amarildo volta a saturar 60%.

Em sua casa estão todos os familiares da aldeia. Amarildo diz que e difícil convencê-los de que é perigoso estar por perto agora. Todos querem ir visitar pra saber como está sua doença. Alguns estão vindo até de outras aldeias para fazer visita.

O isolamento domiciliar é uma grande dificuldade. Os indígenas moram em casas sem quartos, sem divisões. Em cada casa chegam a morar até 15 pessoas, compartilhando redes, cujas, copos, talheres. Normalmente em uma aldeia todos são familiares, e quando um fica doente todos vem para apoiar.

Hoje o pajé vai chegar para ajudar a curar a doença espiritual de Amarildo. Só depois a equipe de saúde pode fazer oxigênio.

Durante a tarde fazemos mais 2 horas de oxigênio, atingindo 90% de saturação. Amarildo diz que cansou do oxigênio e hoje não vai mais usar.

No dia seguinte a saturação mantém em torno de 60%. Amarildo sente-se melhor, o pajé conseguiu recuperar seu espírito na árvore que foi cortada. Está com fome.

Na hora do almoço retorno. Ele não está bem, não consegue respirar. Está com febre de 38.5°, saturando 55%. Creptações em dois terços do pulmão direito e metade inferior do pulmão esquerdo.

Ofereço retirada para hospital. Amarildo se nega prontamente. O oxigênio eu consigo convencê-lo. Conectamos o concentrador de oxigênio. Deixo com fluxo de 3l/min.

Retorno após 2h e Amarildo retirou o cateter. Não consegue mais usar aquilo.

Sente que o aparelho está enfeitiçado e que os vírus circulam pelo cateter: “Eu consigo ouvir, doutora”.

Converso com Amarildo novamente sobre os riscos do oxigênio baixo.

– Eu entendi doutora, mas agora vou deixar a natureza me curar.

É difícil, me preocupo. Converso sobre a gravidade com os familiares. Todos entendem, mas a decisão é do Amarildo. Ele não quer.

Esse momento e sempre difícil, mas compreendo. E combino que retornarei 2x ao dia.

Na manhã seguinte, prá minha surpresa, Amarildo está sentado, comendo beiju, saturando 70%. Seu filho conta que na noite anterior chegou a 80% de saturação.

Fico feliz, ofereço oxigênio novamente

– Eu não quero doutora, vou ter que desenhar os motivos?

– Não Amarildo. Vamos aguardar a natureza.

À noite retorno e Amarildo está melhor, saturando 80%.

Na manhã do quinto dia de acompanhamento Amarildo está saturando a 92%, se alimentando e não sente mais cansaço. Sua taquipnéia (aumento anormal do número de incursões respiratórias)  melhorou. Os estertores ainda mantém, mas só em bases.

Daphne Lourenço

Médica de Família e Comunidade, atuando no DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Xingu.

sobre os Diários da Pandemia:

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