Diários da Pandemia #8: Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

O ressurgimento Puri: o sangue dos nossos ancestrais grita e se agita para revelar para ao mundo a sua existência.

Este artigo é baseado em TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) apresentado em 2020 à Universidade Federal de Viçosa como requisito para obtenção do título de Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza.

Onde estavam os indígenas Puri quando o sistema os dava como extintos?
Nós estamos aqui, vivos!
Orando, rezando, curando, plantando, lutando, resistindo e ressurgindo.

Nós Puris, considerados povo extinto reivindicamos nosso direito a identidade indígena. A falta desta identidade é dramática e desagregadora.

Em nossas veias corre o sangue dos nossos ancestrais que clamam por justiça. O sangue dos nossos ancestrais se agita e grita para revelar para ao mundo a sua existência. Eles querem justiça, nós queremos justiça e resgate dos nossos direitos negados por séculos

Somos milhares espalhados pela região sudeste do Brasil, e por meio de redes sociais, criamos o Movimento de Ressurgência onde fazemos o resgate da identidade cultural e espiritual do nosso povo, com encontros e vivência ancestral.

Alguns museus ainda guardam objetos, pedras usadas como ferramentas, e outros utensílios Puri. Todas estas informações sobre nossos costumes, cantos, danças e instrumentos musicais são muito importantes para o resgate da cultura Puri.

Entretanto, é mais importante quando me vejo praticando esta cultura milenar. A informação não vem somente através das pesquisas nos livros. Afloram também da minha memória afetiva ancestral, como se existisse um chip  de memória guardado. Através de sonhos e visões, o meu contato espiritual fica real. Em sonhos converso com meus ancestrais e me vejo falando a nossa língua.

E quando recebo a oportunidade de tornar pública a nossa existência e lutar pelos nossos direitos constitucionais, porque não ousar?

“As duas famílias linguísticas -Tupi e Puri- reúnem os povos historicamente mais importantes do Rio de Janeiro, que ocupavam vastas extensões de seu território e contribuíram, decisivamente, para a formação étnica do povo fluminense.”

(FREIRE, J. R. B.; MALHEIROS, M. F., ” Aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro.Rio de Janeiro”, 2009, p. 23). 

No século XIX, nosso povo foi sendo desalojado com a expansão do café, logo após nosso povo ter sido catequizado pelos capuchinhos portugueses e depois pelos italianos. Criaram aldeamentos para manipular e controlar nosso povo como foi ocaso das aldeias em São Fidelis, São José de Leonissa, São Luís Beltrão e Santo Antônio de Pádua.

Hoje, os Puris estão espalhados por toda região sudeste do Brasil (SP, RJ, ES, MG) entre zona urbana e rural.

Descobri vários grupos de famílias Puri morando em diversos municípios de Minas Gerais: Araponga, Jequeri, Montes Claros, Viçosa, Muriaé, Juiz de Fora.

Mas também no Rio de Janeiro, principalmente na região de São Fidélis, cidade que conta com os distritos de Colônia, Ipuka, Pureza, Cambiasca, e mais especificamente nos bairros do Valão dos Milagres, Valão do Amparo, Valão de Areia, Piraí, Olho D’agua e Angelim. Embora também possam ser encontrados em cidades vizinhas como Lumiar, Cordeiro, Macuco, Bom Jesus de Itabapoana e Cambuci.

Durante boa parte da minha infância morei com meus pais e irmãs em uma comunidade chamada de Morro do Muquiço no Bairro de Deodoro no Rio de Janeiro, próximo a Floresta do Cambuatá, um aldeamento onde se misturavam indígenas e pretos.

Nossa casa era feita de pau a pique, construída pelas mãos dos meus pais à beira do Rio Marangá, que faz parte da sub bacia dos Rios Acari, Pavuna e Meriti.

Meus pais eram agricultores, indígenas, plantavam e criavam animais em qualquer espaço de terra que viam oportunidade. Traziam consigo a cultura ancestral que aprenderam na infância. Praticavam a agricultura de forma simples, sem agrotóxico ou qualquer química industrializada. A agricultura ecológica, hoje denominada agroecologia, uma forma de plantio que não agride o meio ambiente.

Terra para o não indígena é capitalismo, monocultura, agronegócio, desmatamento. Para nós indígenas, conscientes, a terra é vida, sobrevivência, saúde e cultura.

Nós Puri continuamos por aí, alguns de nós,dispersos quanto povo, vivendo em zonas rurais e urbanas, mas não dispersos quanto aos conhecimentos da natureza.

Prova disso é se você perguntar a qualquer Puri a respeito dos conhecimentos da natureza, ele sempre terá alguma receita de ervas, chá, xarope, bebida, alimento, canto, dança.

E ainda vai relatar sua intimidade com os seres encantados da natureza, sua espiritualidade, proximidade com os animais e tantas outras riquezas que compõe a nossa maravilhosa cultura.

Em suma, está no sangue, em nossa memória afetiva os nossos conhecimentos ancestrais. Todos os nossos conhecimentos estão na nossa memória afetiva.

Além dos nossos saberes ancestrais também trazemos conosco os saberes acadêmicos que nos complementam, como por exemplo os conhecimentos da agroecologia, que resgata e potencializa a nossa forma de plantio ancestral nas zonas rurais.

Autodeclaração indígena é quando o indivíduo reconhece as suas origens ancestrais, ou seja, se auto reconhece e se declara indígena, assumindo sua cultura sem medo dos preconceitos que geralmente encontra ao se autodeclarar.

A declaração de reconhecimento é feita através de um documento que nós mesmos produzimos e assinamos. Nossas lideranças assinam os documentos, após certificar estas informações.

Para receber a bolsa de estudos, por exemplo, o MEC, exige a assinatura de 3 lideranças indígenas, reconhecidas pela FUNAI, nos reconhecendo como indígena. Este documento assinado pelo candidato que afirma sua identidade étnico-racial, e pelas lideranças indígenas são entregues na FUNAI que também nos reconhece, reconhecendo a nossa etnia como povo existente.

Minha autodeclaração como indígena iniciou com a minha consciência indígena, resgatando em minhas memórias afetivas minha história de vida.

Também resgatei informações em conversas com meus parentes mais velhos, sobre o passado dos nossos ancestrais. Somado a isto, realizei em 2011 uma pesquisa no site da Secretaria de Cultura da cidade de São Fidélis-RJ,aonde nasceu a minha mãe. Nesta pesquisa descobri que indígenas das etnias Puri e Coroados foram os primeiros habitantes desta região e moravam em aldeias.

No fundo sempre soube que eu tinha origem indígena. A minha dúvida era somente em relação a minha etnia.

Eu já sabia que meu pai era indígena, porque minha mãe sempre falava isso. Minha mãe sempre dizia que meu pai era indígena e o pai do meu pai, meu avô, era caboclo do mato, cabelo liso e pele morena escura (chamado popularmente de Negro Puri, por ter a pele mais queimada do que os brancos colonizadores).

Já minha avó paterna, segundo a minha prima mais velha, era morena da pele avermelhada, dos cabelos lisos e compridos até a altura abaixo das nádegas.

Já a avó da minha mãe foi perseguida na mata, atacada por fazendeiros portugueses e levada para a fazenda dos brancos europeus e criada por eles, até ficar adulta. Este fazendeiro que a capturou, a fez sua mulher, dando origem a minha avó mestiça, que veio a se casar com descendente de alemão.

Meu interesse em esclarecer alguns pontos sobre a minha etnia se deu a partir de conversas com o indígena Dauá Silva (Puri) na Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC) de Quintino-RJ, em 2011.

Momento em que fui convidada a conhecer a Aldeia Maracanã.

Lá, me senti em casa, era o mesmo ambiente que vivi durante toda a minha vida. As casas feitas de pau a pique, fogueira toda noite e roda de conversa enquanto assávamos o milho e a batata. Todos os costumes dentro da Aldeia Maracanã eram os meus costumes,era a minha cultura e eu me identifiquei bastante, o que reforçou a minha curiosidade como indígena.

Meu segundo encontro com os Puri foi no ano de 2015, quando entrei para o curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Viçosa (LICENA). Em uma das reuniões durante a Troca de Saberes, resolvemos criar o Movimento de Ressurgência Puri (MRP) por sugestão da Carmelita Lopes (Nama Puri).

“Algumas soluções para fortalecer a organização Puri já estão se dando. Os Movimentos de Ressurgência Puri, segundo sua carta de princípios, propõe uma organização em rede, de forma descentralizada, através de lideranças que compartilham sua autogestão, respeitando a individualidade de cada membro, contribuindo para fortalecer núcleos Puris em diversas cidades e articular alguns deles. Particularmente nas cidades de Araponga, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Maricá, São Fidélis e Valença, fortalecendo a atuação coletiva de Puris em âmbito local. Cada Núcleo possui suas especificidades particulares, embora existam alguns aspectos culturais e demandas em comuns.”

(RAMOS, M. F., “Re-existencia e ressurgência Indígena: diáspora e transformações do povo Puri”, 2017, p. 155)

Nosso povo Puri, depois de uma dormência de mais ou menos 200 anos, estamos ressurgindo como uma Fênix.

Nossos parentes tiveram muitos prejuízos, e agora é hora de lutar, de conscientizar nossa geração a não se calar e vir para a luta também. Nossos prejuízos irreparáveis, prejuízos a todos os povos do Brasil e do mundo, merecem justiça e reparação dos danos que nos foram cometidos.

Nosso trabalho como militante das causas indígenas é levar esta consciência aos povos originários, para que possamos sobreviver e sermos aceitos e respeitados na sociedade dos não indígenas.

Hoje, depois de muita luta, nosso povo começa a dar importância a cultura ancestral e buscam no passado, em suas lembranças afetivas, na hereditariedade, no sangue, a sua real identidade. Identidade esta que nos foi roubada, camuflada, esquecida e nos tornaram invisíveis durante muitos anos das nossas vidas

Ficamos conhecidos e reconhecidos como povos ressurgentes pela FUNAI de Governador Valadares, Rio de Janeiro e Brasília. Somos também reconhecidos e respeitados por povos indígenas de outras etnias.

Hoje vivo no território indígena dos meus ancestrais em São Fidelis, RJ. Lá também moram os parentes, descendentes violados das suas terras e privados de manterem sua cultura. Não se lembram que são indígenas, pois sofreram praticamente uma lavagem cerebral pelo não indígena, o colonizador, ao passar por um processo de descaracterização e desconstrução do legado dos antepassados.

Perderam seus direitos a terra e outros direitos dos indígenas, previstos na Constituição Federal brasileira, por não serem mais indígenas, segundo a filosofia dos brancos.

Compreende-se que muitos pensadores brasileiros, acreditavam que inevitavelmente os indígenas seriam tragados pela voragem do tempo e do “progresso”. No entanto, os movimentos de resgate da cultura indígena, como o MRP (Movimento de Ressurgência Puri), assim como muitos outros, unidos pela força ancestral e amor a cultura originária, buscam dar visibilidade a esta história e a este povo.

Tenho atualmente um espaço particular onde criei o encontro de referência indígena cultural “Aldeia Uchô Puri”. Espaço particular, de vivência ancestral, com encontro anual,onde reunimos nosso povo e praticamos a nossa cultura.

Guerreiros de resistência e ressurgência estão nesta luta dura por décadas, buscando seu lugar de direitos nesta sociedade.

Fica este registro, o legado que quero deixar neste século XXI, para a minha geração, e que os parentes continuem com a luta para que nosso povo nunca se acabe, e quando eu for morar com as estrelas, junto a um pomar de sapucaias, de lá, eu possa me orgulhar ainda mais do meu Povo de bravos guerreiros(as).

Ho Bugre Itanaji, há!

“Andantes da terra a beira do mar
Eles andavam livres, se escondiam do perigo da natureza:
Um só povo, uma família.
Um grupo de pessoas, seus nomes, quem sabia?
Como identifica-los? Pensavam quem os viam.
Talvez pelos pássaros, que voavam a cercania onde viviam?
Assim, nomearam os estrangeiros:Jacutingas, Maracanãs, Tukanos, Puris, Cariris, Xocós.
Eram de vários troncos linguísticos diferentes Tupinambás, Gês, Guarani, Karibe, Aruaques.
Onde estão hoje?
Onde foi parar os valentes Goitacás, Terminós, Guaianás?
Será que a marca da pena que escreve letras terá tamanha eficiência de riscá-los do mapa?
Com simples decreto ou medida provisória, extingui-los de vez?
Não, suas marcas estão aqui nas pedras, nos morros,no litoral, evidências que a ciência da arqueologia comprova.
Nas veias de seus descendentes correm o sangue originário desta terra!
Sangue forte, resistente, que suporta tudo, aos ventos, ao tempo.
Sim, esse povo quer falar, quer que sua voz seja ouvida, como seres plenos de vida, para clarear as paginas das histórias mentirosas, escritas à força.
Daremos a esse povo o direito de falar, de escrever e poetizar.
Energias das (Chúri), pois somos Puris!
(PURI Dauá, 2016, p. 22)

Jombey làn tope puki,
Makim, mititope puki guaima thamathih.
Tènu ahy , DoKôra.

(A língua puri estava morta,
hoje a língua puri está viva
Gratidão, Grande Espírito).

(Opetahra/Sol Puri)

“Ninguém ignora tudo.Ninguém sabe tudo.
Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós ignoramos alguma coisa.
Por isso aprendemos sempre”.
(Paulo Freire)

“THAMATHIH PUKY, HÁ”

Opetahra Nhãmanrúri, Indígena pertencente a etnia Puri. Técnica em Podologia, Cabelereira, Artesã, Agente de Desenvolvimento Sócio Ambiental e graduada em Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza, com ênfase em Agroecologia.Militante, ativista. Pertencente aos Movimentos de Ressurgência Puri, Movimento de Resistência Puri (Aldeia Maracanã), e membro da organização não governamental NEPP (Núcleo Ecológico Pedras Preciosas).

vídeo:

sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Diários da Pandemia: Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

Diários da Pandemia: na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

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