Aos núcleos de base,

Aos Elos,

À rede de Mulheres em luta,

Aos territórios, povos, organizações,

À militância da Teia dos Povos

Com a permissão dos mais velhos e encantados,

 

Tempos difíceis e de mudanças profundas. Tempo de muito sofrimento e dor. Mudanças climáticas, mudanças no modo de produção capitalista, fim da hegemonia do império americano, recolonização da América Latina, alianças das elites com a classe média para impor aos Povos o fascismo, a volta das religiões neopentecostais com a pregação de um falso moralismo, perseguição a outras religiões, associação ao narcotráfico para impor nas periferias o sistema de controle e de obediência ao regime autoritário. 

Por outro lado, a esquerda sem rumo, sem clareza ideológica, assumindo o identitarismo sem entender que estão dividindo os Povos, embriagados por um pacifismo sem precedente e sem nenhuma clareza de objetivo final, e para completar, sem nenhuma relação com as bases oprimidas. Falam de utopia sem nenhuma realização concreta, iludindo o povo. Falam que através do voto e da conciliação de classe irão resolver o problema da classe trabalhadora e dos Povos deserdados e oprimidos. É a insistência em vender ilusões. Será que esse é o nosso destino? 

Nós da Teia não acreditamos que esse será o nosso destino. Temos poder e capacidade de mudar esse trágico destino. Não é fácil, não é simples, mas nós podemos. Para isso é necessária uma mudança radical, como seres humanos e indivíduos particulares. Enquanto indivíduos, precisamos mudar radicalmente os nossos hábitos de consumo. Assim, se somos contra o capitalismo, devemos decretar guerra ao capitalismo. A primeira tarefa: não consumir os produtos do capital. Precisamos recorrer a nossa criatividade e como dissemos, reafirmar o nosso compromisso de luta pela terra e território. Afirmar nossa responsabilidade com unidade para construir comunidades autossuficientes com toda tecnologia que a humanidade já construiu para não depender dos produtos do capital, porque quem critica o capitalismo e consome os produtos do capital está fortalecendo os verdadeiros capitalistas. Se vamos ajudá-los a ficar mais ricos, então não os derrotaremos. Eles são nossos inimigos. Lembrando que essa tarefa parte primeiro de ação individual, mas ela é fundamentalmente coletiva. Sem uma boa individualidade não há uma grande coletividade. Sem uma grande coletividade não é possível ter uma boa individualidade. Então, tudo se inicia do particular para o coletivo e universal. Essa relação precisa estar bem clara, precisa estar intimamente ligada à terra, ao território e à todos os seres da natureza, ou seja, a terra, a água, o fogo, o ar, as formigas, os passarinhos, os fungos, as florestas e tudo que dá sentido à vida. Essa é a primeira tarefa, ligar tudo que está separado e, através dessa metamorfose, reconstruir outra perspectiva de humanidade junto a nossa querida mãe terra.

A outra tarefa é juntarmos todos os Povos oprimidos que estão separados e emanar todos juntos numa guerra sem trégua contra o capital. Construir uma grande aliança indígena, preta e popular. Essa é a mais árdua tarefa, por que essa unidade precisa estar dentro da diversidade e precisa estar num processo grandioso de luta contra o capital e contra o sistema. Esta luta será diversa e unida para defesa da terra e do território na construção de uma sociedade autônoma e com espirito de construção de uma sociedade verdadeiramente emancipada. Sendo assim, não teremos tempo para comemorar datas importantes, o capitalismo as transformou em consumo e esbornias. Nesse sentido, não temos datas para comemorar e não temos tempo a perder. 

É hora de nos organizarmos para preparar as frentes de batalhas se quisermos ser vitoriosos. A opressão se tornou tão grandiosa que não temos tempo, nem espaço, nem local que possamos refugiar dessa tragédia humana que o capitalismo nos impôs em pleno século XXI. Não há mais tempo para chorar, não há mais tempo para temer por que a força do capital é avassaladora e contra essa força só um Povo unido e disposto a lutar até as últimas consequências para defender outra construção verdadeiramente humana.   

Comunidades, organizações, núcleos de base, elos e apoiadores da Teia dos Povos, temos que reafirmar nossos votos nessa grande luta, voto que fizemos no Coração das Terras Payayá em 2019. Temos tarefas práticas e urgentes que precisam ser fortalecidas por aqueles que selaram a aliança dos povos.

I) cada organização, território ou povo precisa articular ação conjunta entre diferentes movimentos em sua região que construa coletivamente uma ação de soberania energética, hídrica ou alimentar. Nós precisamos abolir nossas dependências do capital, é preciso ampliar nossa rede de cisternas de captação de água de chuva, equipamentos de energia solar e sistemas agroflorestais. Cada região precisa definir uma ação desta e deixar organizada para nosso próximo encontro;

II) se vamos diminuir nossa dependência com o capital precisamos iniciar nossa transição para sair dos grandes oligopólios de comunicação e vigilância. Facebook, Google e Microsoft são grandes empresas do império que nos tem viagiado cada passo, ajudado a ascensão do fascismo que opera via algorítimo nas redes e retirado nossa autonomia de comunicação. Isto significa transitar urgentemente de ferramentas como Whatsapp para Signal, Telegram, Wickr ou outros. Sair do Gmail, Hotmail ou Yahoo para Riseup.net ou Protonmail e abandonar definitivamente o Facebook que já informou que monitora geolocalização e nossos dados mesmo quando desabilitamos estas funções. Não perquemos mais tempo: comecemos a transição para os softwares livres. Nossos povos precisam de formas autênticas de comunicação, não alienadas – não tenham ilusões com grupos de wahtsapp. Dados são informações e informações são dinheiro. Isto é sobre poder. Não alimentemos quem nos quer de joelhos.

III) as comunidades e organizações que se aliançaram na Teia dos Povos precisam construir comitês de diálogos com territórios que enfrentam guerra, fome, contaminação e todo tipo de maldade do capitalismo. É preciso, sobretudo, conversar com as mães de vítimas da violência de estado e outras formas de violência e levar-lhes comida e palavra. É preciso dar dignidade e acolhimento nos territórios onde o povo ainda não está organizado;

IV) cada povo, organização, núcleo de base e elo deve chegar à nossa próxima reunião com a agenda de pré-jornadas da sua região para 2020. Cada pré-jornada deve passar desta fase de diálogo e troca de saberes da Teia para ações concretas. Cada pré-jornada deve cumprir uma tarefa a respeito da luta. É essencial que tenha trabalho coletivo (mutirão), compreensão da estratégia de luta e expansão das alianças com movimentos, organizações e povos que ainda não conhecem nossa aliança.

Não haverá paz enquanto conciliarmos com o capital, com sua máquina de genocídio preto e indígena. É preciso transitarmos das pequenas batalhas de cada organização e movimento para a grande luta dos povos para derrotar quem nos tem matado. Paz entre nós. Já somos irmãos e irmãs em dor e acolhimento. Guerra aos nosso senhores. Nem os mortos poderão descansar enquanto o genocídio seguir. Em 2020 há uma grande luta por fazer!

 

Diga ao povo que avance!

 

Teia dos Povos, Verão de 2019.

À militância da Teia dos Povos

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