Posted on: 30 de julho de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 0

Em Duque de Caxias (RJ),  a organização popular autônoma  na luta pela saúde e por melhores condições de vida.

O Movimenta Caxias já existe desde 2017. Começamos pensando sobre o momento atual, discutindo de forma coletiva, pensando em como aquecer as lutas e intervir no mundo virtual e real.

Foi uma articulação de pessoas que não estavam ligadas a política tradicional da cidade. Cidadãos e cidadãs que queriam pensar uma cidade para se viver e não uma cidade voltada para o lucro.

Duque de Caxias é uma cidade rica com uma população pobre, que sofre com problemas básicos como: saneamento, falta de posto de saúde, de creche, etc.

Então começamos a pensar esta cidade para nossos interesses, porque os poderosos pensam para os interesses das empresas de ônibus, que cobram uma passagem cara, para os interesses das empresas de lixo, que muitas vezes prestam um péssimo serviço, para os interesses daqueles que querem vender terras ilegais em áreas que não são apropriadas para moradia.

Enfim, pensamos que quem sente na pele é também quem pode trazer soluções. No método ver, julgar e agir. Construir um conjunto de propostas, um programa que tenha a nossa identidade de moradores da Baixada Fluminense.

Estávamos num momento de muito intolerância e individualismo. Muita desesperança. E achamos que aquilo só podia ser mudado com coletividade, solidariedade. Era época de criar pontes e não muros.

Tecer uma rede com todos aqueles que estavam pela cidade mas não eram ouvidos. E acreditavam que era possível mudar.

Em 2017 focamos em alguns bairros, como o Pantanal, o Centenário, a Vila Operária, a Paulicéia, o Jardim Gramacho. E fomos ampliando. Visitando os bairros e fazendo reuniões entre os bairros.

Tínhamos a intenção de falar com mais gente e ampliar nosso diálogo.

Também considerávamos em enfrentar as medidas autoritárias. Estava no momento do golpe na Presidente Dilma e víamos a sequência de medidas sento tomadas que iriam prejudicar ainda mais as nossas vidas. Reforma da previdência, congelamento do teto de gastos durante 20 anos. Uma sequência de intervenções na nossas vida, como a própria intervenção militar no Rio de Janeiro.

E também queríamos pensar o que poderíamos fazer para encaminhar as demandas da população, as demandas do povo. Como poderíamos cobrar. E também de ouvir, alcançar as pessoas.

Então começamos a atuar.

Nesta atuação, fomos fazer seminários para resolver a situação da violência, pois acreditamos que a violência tem solução.

Pensar a violência partir da perspectiva da favela, a partir da perspectiva de pesquisadores. Quais são as possíveis soluções para a violência.

E tudo o que produzíamos virava material, jornais. Chegamos a produzir 5.000 jornais.

Denunciamos um surto de chikungunya que teve na cidade, sem a Prefeitura houvesse decretado um alarme para a população se precaver e haver um reforço das políticas públicas nesta área.

Também denunciamos a retirada da “Linha 22”, que levava de uma bairro até o hospital e também até o Shopping, onde fica o único cinema da cidade.

Fizemos uma ação muito forte contra o racismo religioso. Um seminário com a presença de representantes de religiões diferentes.

Fizemos ato pela paz.

Enfim, uma sequência diversificada de ações. Até que chegou a pandemia.

Já tínhamos planejado um Grupo de Trabalho de solidariedade, considerando que a vida das pessoas iria piorar.

Queríamos fazer pesquisas e produção de dados para se referir a esta situação tão cruel que estávamos vislumbrando.

Cartilhas para mostrar formas de acesso ao serviço público, para as pessoas não ficarem nas mãos do clientelismo. Cobrar o fundo da cultura, para os trabalhadores da cultura.Organizar rolezinhos com os jovens da periferia, para terem possibilidade de acesso a cultura e lazer.

Estávamos com muitos planos em andamento. Inclusive iríamos realiar um festival de música e cultura na cidade.

Mas a pandemia chegou e interrompeu todo este nosso percurso.

Percebemos logo no primeiro momento que a favela, a população pobre, a população negra seria a mais afetada. A COVID-19 mata, mas a desigualdade social acelera o óbito. Foi o que dissemos através do Perifa Connection.

E começamos numa lógica da sobrevivência, conforme a Conceição Evaristo falou: “Se eles combinaram de nos matar, nós combinamos de não morrer!”.

Então articulamos uma sequência de ações de solidariedade, tendo em vista que as orientações da OMS eram “Fique em casa” e “Lave as mãos”.

Mas como ficar em casa com cômodos pequenos, com muita gente? Muitas vezes sem água, porque historicamente falta água na Baixada Fluminense.

Muitas vezes sem ter o que levar para comer para dentro de casa. Porque a pessoa trabalhava como manicure, fazendo uma festa… E a COVID-19 impediu que as pessoas continuassem a fazer seus trabalhos para levar comida para a mesa.

Arrecadamos alimentos, uma parte deles orgânicos numa parceria da cidade com o campo, com os produtores rurais. Algo que já vinha sendo estabelecido ao longo desses anos. Também conseguimos material de higiene. Garantindo assim que estas famílias tenham algum grau de resistência a COV ID-19.

As políticas saúde não chegaram. Cobramos muito que o governo fizesse a parte dele, pois consideramos que este é um papel do Estado.

O auxílio emergencial foi uma vitória. uma batalha no Congresso Federal para que fosse aprovado o valor de R$ 600, porque o Governo Federal queria um valor de R$ 200.

Neste cenário nos organizamos juntamente com a Crioula, o PerifaConnection e Instituto Marielle Franco e atingimos com isso 19.000 famílias em um mês.

E teve também a luta anti-racismo. Pois no meio desta pandemia fomos atravessados por várias operações policiais. no Rio de Janeiro inteiro. Foram 13 mortos no Alemão. Conflito na Cidade de Deus, interrompendo uma entrega de cestas básicas. Várias violações ocorrendo, com a Baixada Fluminense tomada por tiroteios.

Então aconteceu o caso do menino João Pedro. Sua casa invadida e 72 tiros disparados. Ele é assassinado e seu corpo levado por uma helicóptero.

Neste cenário de COVID-19, ficamos em casa. Estávamos em casa e foram em nossa casa nos matar. Então tivemos que ir às ruas para fazer a defesa da vida.

Esta movimentação foi no mesmo período do assassinato do George Floyd, nos Estados Unidos.

O racismo do Brasil aos Estados Unidos não nos deixa respirar, nos sufoca. E quer nos matar ou de tiro, ou de vírus ou de fome. E a gente precisa resistir a todo esse processo.

Wesley Teixeira

militante do “Movimenta Caxias”, coordenador do pré-vestibular popular “Mais Nós”, participa do Coletivo RUA (Juventude Anti-Capitalista) e do Movimento Negro Unificado”, colaborador de mídias alternativas como “A Voz da Baixada” e “Perifa Connection”.

vídeo:


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

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